Carol, a menina q ñ perde tmp

Fast-forward, skip, delete, close, quit, ou qualquer outro botaozinho impaciente estão transformando nossas crianças. 

Para nós, são confortos tecnológicos. Para as crianças, é a vida como ela é. 

Minha sobrinha pediu para ligar o Ipod no som do carro. Na primeira nota musical, ela grita como se uma barata voadora tivesse se enroscado em seu cabelo: “tira,tira,tira” e completou tapando os ouvidos: “cansei dessa música”. E assim foi até a 7º música, quando finalmente ela aprovou. 

Na idade dela eu me conformava em ouvir a música indesejada até o final porque qualquer som era melhor do que ouvir o urrrrrriiiiiiiiiiiiiurrrriiiii da fita cassete indo para a frente. 

Carolina, minha sobrinha, do alto de seus 10 anos acredita que pode pular qualquer parte desagradável da vida. E até aqui não há nada que a desminta. 

Por exemplo: ela pode dar um  “skip” em um comercial no Youtube para ver o Justin Bieber rebolar enquanto eu passei a vida aturando uma média de 30 minutos de comerciais por dia para ver meus programas. 

Ela liga direto para o celular da amiga e assim dá um “skip intro” na parte em que teria que engatar uma conversa com D.Neide, mãe da amiga:”Oi Dona Neide, é  a Mari. Posso falar com a Ana?”, “tá, tá tudo bem na escola”, “sim, tô adorando o balé”, “Vovó? Ah, tirou a vesícula”… 

Lembro que se o telefone de casa estivesse quebrado, teríamos que recorrer ao telegrama e seriam 2 dias até a pessoa retornar. Mas hoje, se a amiga não está, Carolina torpedeia a menina de todos os jeitos: pelo SMS, Twitter, Facebook, E-mail e  sabe que em questão de minutos a amiga retornará usando o mesmo poder de fogo. Outro dia mesmo, fez uma pergunta ao pai: “O que é estapafúrdio?” O pai abaixou o jornal pensativo, formulando uma resposta. Quando disse a primeira sílaba, a filha respondeu que não precisava mais pois tinha acabado de achar no Google uma explicação que a satisfez plenamente. O pai ainda perguntou se ela não gostaria de ouvir a definição dele, mas ela já tinha enfiado o fone branco de volta no ouvido. 

Fico pensando como as companhias aéreas e as telefônicas vão fazer daqui pra frente porque não consigo ver Carolina nem nenhuma de suas amiguinhas esperando 14 minutos na linha até ser atendida como fiquei na semana passada. 

Carolina vai crescer e ver que tem muita coisa chata que a gente tem que enfrentar. Mas se ela conseguir dar um skip, quit ou até delete na espera do telemarketing, a pressa precoce terá valido a pena.

Brevíssima Amizade

Na terça-feira contratei uma babá maravilhosa. Na quarta, ela pediu a senha do Wi-Fi de casa para ter internet no celular, achei o máximo. Na quinta, recebo um convite da babá pelo e-mail pedindo para ser minha amiga no Facebook. Achei divino porque  é sempre bom a gente saber o que ela faz e com quem anda, afinal ela cuida de meu filho de 6 meses.

Eu acabei de voltar a trabalhar e estou assim meio neurótica, pensei em instalar câmeras na casa mas sou contra ficar espionando babá sem uma justificativa razoável e também iria atrapalhar meu rendimento no serviço. Portanto, nada de câmeras.

Pois na sexta pela manhã, assim que cheguei no escritório fui dar uma olhadinha no Face. Vi que a Thayanne postou um vídeo de pagode de gosto duvidoso e fiquei me perguntando se Francisco, meu filho, tinha ouvido tal música porque lá em casa só deixo ouvir Beatles em Cordas e Beethoven Para Bebês.

Voltei do almoço, me loguei no Face antes mesmo de escovar os dentes e vi que Thayanne postou sobre Francisco: -Acabei de dar banho na minha coisa fofa. Não gostei do “minha” coisa fofa. Sentimento de posse não é algo saudável e além do mais, a coisa fofa é minha.

Logo depois um amigo chamado Maicon X, postou para Thayanne: – legal que você tá curtindo o  trampo, gata! Entrei no perfil de Maicon X e vi a foto: fortão, tatuado e com copo de chopp na mão. Nisso, a Suelen amiga de Thayanne, escreveu : – Thay, o Fran é fofo! Fran? O nome dele é Francisco e o apelido é Chico.

Liguei para Ana, mãe do Joaquim, que me disse para fechar os olhos e também o Facebook, porque tá difícil arrumar babá que durma.

Às 6 da tarde, Thayanne escreveu que Francisco adora a papinha que ela prepara e só queria ficar no colo dela o tempo todo. A Quésia escreveu: – Thay, vô te dar uma camisa infantil do Mengão pra vc colocar no Fran e postar a foto aqui. Mengooo!!!

Mengo? Francisco é são-paulino, claro. Liguei em pânico para Mari, mãe da Antônia e do Bento, pedindo conselhos: “relaxa, é a primeira semana dela no trabalho. Daqui a pouco, o Fran, digo, o Chico não vai ser mais novidade.”

A gota d’água veio às 19:23.  Thayanne postou: – Fran dormiu segurando o meu nariz, feito um anjinho. Enchi meu amor de beijos.

A coisa está fora de controle, Francisco segura o MEU nariz para dormir e somente o MEU, pensei. Desloguei do Facebok, peguei minha bolsa e corri pra casa. Thayanne era, sem dúvida, uma excelente babá mas sermos amigas no Facebook desgastou nossa relação.

Entre dois mundos

São 9:34 na Brasilândia: Acesso meu banco pela internet e pago todas as contas deste mês.  Estou me sentindo mais leve sabendo que, fora as figurinhas do Harry Porter que prometi para minha filha, não devo nada a ninguém.

São 10:45 no Brasilzão: Espalho detergente nos ralos e pó de café nos pratinhos das plantas na esperança de espantar o mosquito da dengue. Como nunca tive a doença, estou conformada que vai ser desta vez. Não há raquetada elétrica que afaste este destino de mim porque no Brasil, caros, uma hora a estatística te pega.

11:56 na Brasilândia: Recebo no celular um SMS do laboratório me lembrando a data em que farei os exames e que o Kit Lanche está a minha disposição. Fofos.

12:40 no Brasilzão: Rego as plantas da calçada de dentro de casa apenas colocando a mangueira entre as grades do portão. Essa técnica exige habilidade avançada mas impede que a casa seja assaltada como aconteceu com a vizinha da frente. E com a da esquina também.

14:32 na Brasilândia:  Aproveito uma pausa no trabalho para comprar pela internet um quadro sensacional de uma artista paulistana que vive em São Francisco.

16:44 no Brasilzão:  Vou andando até o caixa eletrônico que fica no posto de gasolina perto de casa, mas sou avisada que ele, o caixa, voou pelos ares nesta madrugada (ninguém se feriu apenas o mendigo que dormia próximo entrou em estado de choque e foi internado. Rezo por ele.)

18:31 na Brasilândia: Converso pelo Skype com minha mãe que está em Roma numa feira sobre literatura brasileira. Disse que todo mundo lá acha o Brasil o máximo e quer mudar para cá. Fofos.

50% é sorte. O resto é azar.

Tadeu é daquelas pessoas que atraem o improvável. Quando estava numa praça em Veneza, duas crianças asiáticas faziam guerra de miolo de pão e ele foi atingido. Normal se elas não fossem filhas do Woody Allen e Soon-Yi. As estripulias das crianças renderam 5 minutos de conversa com o gênio do cinema. 

Um dia ele estava com a sobrinha na entrada de seu prédio. Estava resfriado e espirrando a toda hora. Em um de seus fortes espirros, colocou as duas mãos no rosto. Foi o tempo suficiente para a menina colocar a cabeça no quadrado vazado do portão automático e um motorista que acabara de chegar de carro, ligar o portão. Quando abriu os olhos de novo, viu a sobrinha de apenas 1 ano sendo suspensa pelo pescoço presa ao portão automático. 

Tadeu é um grande cara, seu maior problema é estatístico: em 50% do tempo ele tem muita sorte e nos outros 50%, é muito azarado. Se saímos para jantar pode acontecer do Ferran Adriá assumir a cozinha naquele dia ou é possível o estabelecimento sofrer um arrastão e sermos obrigados a terminar a noite no banheiro. 

Pensando nas estatísticas, chamei Tadeu para jantar em casa. (nunca é tarde para aprender que o improvável é incontrolável) 

Assim que chegou,  Tadeu pediu meu notebook para responder alguns e-mails. Era o notebook da firma, digitei a senha e o deixei  mexendo enquanto eu e meu marido preparávamos o jantar na cozinha. 

A noite transcorreu na mais absoluta normalidade. 

Na segunda-feira antes do almoço, fui chamada na sala do Diretor de TI da firma. Ele queria saber se o notebook era usado por outras pessoas pois isso violaria as regras de sigilo da empresa. Sabendo da paranoia com o sigilo, apesar de eu ser uma mera gerente comunicação interna, garanti que eu era muito zelosa e como era protegido por senha, nem na minha ausência seria possível alguém utilizar. Ele riu com o canto da boca, agradeceu e eu voltei ao meu lugar. 

À tarde me chamam na sala do Diretor de Recusos Humanos. Ele estava desconfortável com algo que eu não sabia se vinha de dentro da barriga dele ou se vinha de um papel que estava em cima da mesa e para o qual olhava toda hora. Ao lado do Diretor, a senhorinha do DP claramente preferiria estar na Usina de Fukushima do que naquela sala. Com pouco tato e muito constrangimento, me comunicaram que eu estava sendo formalmente advertida  por acessar conteúdos pornográficos com o computador da empresa. Estava tudo registrado. No sábado à noite, eu vi vídeos eróticos do site PornoAção por 23 minutos, mais especificamente das 21:10 às 21:33. 

Senti as bochechas arderem, o coração pular até bater nos dentes (ainda bem que meu maxilar estava travado ou o coração teria rolado pelo tapete, o que não era de todo mal). Mas não havia saída a não ser acusar o golpe. Entre o vexame corporativo de ser a primeira mulher em 98 anos de companhia a ficar vendo sacanagem no computador da firma e a demissão por justa causa por deixar informações sigilosas nas mãos de um tarado punheteiro, fiquei com a primeira opção. Portanto, disse que tal fato não iria se repetir . 

Sai da sala medindo 1 metro mas fui voltando ao meu tamanho normal à medida que ia pensando em como triturar o Tadeu. O que deu nele? Ver pornografia enquanto eu picava cenoura para seu jantar? E ele deu muito azar pois resolveu fazer coisa imprópria com um computador rastreado pelo setor de TI de umas das maiores empresas de tecnologia do mundo. 

Eu estava com muita raiva ainda mais quando ele atendeu radiante e logo disse: - Você não vai acreditar!! Gritei com os dentes cerrados: - Tadeu!!! E quando estava pronta para acabar com a raça dele,  me interrompeu aos berros: - Eu vou ser pai!!!Era os 50% de sorte agindo sobre o destino. Gritei com ele de alegria e amanhã à noite combinamos de jantar fora. Seja o que Deus quiser.

A Cura do Google

Peneirão andava preocupado com a sua relação com o Google. Chegou inclusive a dar um Google procurando “psicólogos que tratem de pessoas viciadas no Google”. Até surgiram alguns profissionais que tratam de pacientes viciados em internet mas não era o caso. O maior site de procura do mundo estimulava a característica mais forte do Peneirão: a curiosidade ansiosa ou a ansiedade curiosa, sei lá. 

Não era um problema sério mas era um problema novo. E problema novo é mais difícil de achar uma solução do que um sério. 

Semana passada, durante a primeira aula de um curso, o professor pediu para que cada um levantasse e dissesse o nome. À medida que a pessoa se apresentava, Peneirão ia digitando o nome no Google pelo simples fato de não conseguir esperar o intervalo para saber mais sobre aquela pessoa, se é casada, qual a profissão, quantos amigos tem, para onde viajou nas férias. Curioso e ansioso, gostava de conversar já sabendo 60% da vida dela. Daí veio o apelido Peneirão, pois após sua busca no Google, ele peneirava as pessoas que julgava mais interessantes. 

Com o Google, a paquera ficou mais ágil. Enquanto puxava conversa com uma menina, dava um Google em seu nome e  não precisava ficar repetindo as mesmas perguntas entediantes “Mora aonde?”, “Estuda o quê?”, “Qual seu esporte favorito?”. Peneirão partia para perguntas mais diretas e profundas como “Por que você terminou com o Catinga depois de 4 anos de namoro?” É certo que algumas meninas se incomodavam com essa abordagem mas outras desandavam a falar : “Porque o Catinga é um safado, mentiroso, energúmeno!” ou “O Catinga fugiu com o Maromba. Foram viver em Bali e vão adotar uma criança vietnamita. E eu quero ter um filho, porque não é justo o Catinga…” e por aí ele já sacava tudo.

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